Profissões que resistem ao tempo
4/8/2008 10:02:05
 O expediente começa às 8h e vai até o meio-dia. Com jornais na mão e força na garganta, a jornaleira Sueli Mugiana de Jesus, 19 anos, fica na “boca do túnel”, perto da praça Getúlio Vargas, no Centro, para garantir o salário de R$ 340 no fim do mês, mais comissão. É o primeiro emprego da jovem, que junta dinheiro para fazer o sonhado curso de Enfermagem. No serviço há apenas um ano, Sueli está dando seguimento a uma profissão antiga, que resistiu às transformações do último século. “Acho que as pessoas compram o jornal na nossa mão mais para nos ajudar”, acredita a jornaleira Kátia Silva dos Santos, 20 anos, que trabalha na região da rodoviária. Ela diz gostar de seu emprego, mas não decidiu se vai continuar nele depois do nascimento do filho. “Estou grávida de oito meses. Vou cumprir a licença-maternidade e ainda estou em dúvida se vou voltar, porque preciso cuidar do neném”, conta.
Segundo Sueli e Kátia, a empresa em que elas trabalham mantém 12 jornaleiras na cidade. O número pode parecer pequeno, mas é maior do que o de relojoeiros. “Lafaiete tem sete relojoeiros. Eu aprendi esse ofício com meu pai, já falecido, e exerço a profissão há 20 anos”, afirma Cláudio Borba de Morais, 38 anos, que, apesar da experiência, considera que ainda tem muito a aprender. Ele critica a falta de interesse dos mais jovens pela atividade e enxerga duas realidades diferentes no futuro. Para o relojoeiro, as pessoas deverão continuar procurando seus serviços. “Hoje em dia, muita gente compra relógios caros. Se eles derem algum problema, compensa mandar arrumar”, opina. Mas, por outro lado, outras pessoas cada vez menos olham as horas nos ponteiros, pois preferem usar a tela do celular, aparelho que também serve de despertador.
Cláudio, que herdou do pai o ponto na rua Homero Seabra, Centro, confessa que, no seu caso, o ditado “em casa de ferreiro, espeto de pau” tem sentido. Às vezes, o relógio de casa ou de alguém da família fica parado, por falta de tempo para o conserto. “Essa profissão é um dom. Para se dar bem nela, tem que ser calmo. Também não pode tremer, senão já era. Relojoeiros de verdade, existem poucos; mas trocadores de bateria, em qualquer lugar você acha”, relata. Tranqüilidade e precisão também são características fundamentais para uma boa costureira. Dirlene Nunes Béu, 53 anos, dá continuidade à ocupação da mãe e diz que a habilidade “está no sangue”. “Quando eu era pequena, gostava de fazer minhas próprias roupas. Depois que cresci, a brincadeira virou profissão.” E lá se vão 15 anos entre tesouras, agulhas e linhas.
Dirlene acompanhou as mudanças no setor. “Antigamente, o trabalho era feito a mão; hoje existe máquina para quase tudo”, destaca a costureira, que desconfia de quem prevê um fim para sua profissão. Ela diz que, mesmo com o grande número de modelos novos de roupas, alguém sempre vai solicitar seus serviços, para ter uma peça diferente e personalizada ou para fazer ajustes. A baiana, que já morou no Paraná e em São Paulo, viu a freguesia aumentar nos últimos anos. Esse fato, segundo ela, é explicado pela diferença entre o corpo da brasileira e as roupas produzidas pelas fábricas. “As lojas só têm roupas para corpinhos magros. Quem não está no padrão e quer uma peça bonita vem atrás de mim”, avalia a modista, que atende qualquer encomenda, “menos vestido de noiva”.
O “salão de costura” (como ela gosta de chamar), em um dos cômodos de sua casa, no bairro Cachoeira (zona norte), é onde Dirlene passa a maior parte do tempo. “Nunca falei ‘hoje não tenho trabalho para fazer’. Às vezes, chego até a dispensar serviço. Minha propaganda é só o boca-a-boca”, ressalta. Ela está disponível em qualquer hora ou dia da semana para atender os clientes, na maioria mulheres, que chegam de vários bairros e até de outras cidades. “Gosto do meu trabalho, procuro ter capricho e dar o melhor de mim. Acho que toda profissão tem importância. Por isso, não tenho vergonha de dizer o que faço”, comenta a costureira. Dirlene aproveita sua atividade para ajudar as pessoas. “Anos atrás, por exemplo, fiz um grande favor para uma cliente, ao deixar o visual dela mais feminino, já que antes ela só usava roupas de homem. Até hoje essa freguesa me agradece pela transformação no seu estilo”, acrescenta.
“Oi, seu Jerson, o senhor está bom?”, pergunta o freguês. “Eu estou bom, mas não vou falar não. Se espalhar dá um rolo...”, responde o senhor de 69 anos, sentado no banquinho de todos os dias, enquanto conserta mais um calçado. Jerson Paes é um dos trabalhadores que mantêm viva a profissão de sapateiro em Lafaiete, onde mora há dez anos. “Os velhos estão morrendo e os novos só querem usar o computador. Mas como vai consertar sapato no computador?”, questiona. Nascido em Dourados, no Mato Grosso do Sul, ele aprendeu o ofício aos nove anos e observa na profissão até uma importância na preservação do meio ambiente: como os calçados são produzidos com material de difícil degradação, um par a menos no lixo é uma poluição a menos na natureza. Os anos de experiência renderam ao marido da professora aposentada Dilma muitas histórias para contar.
Nem os dois derrames, um infarto e um câncer na próstata foram capazes de abalar Jerson. “Quem quiser ir embora na minha frente, pode ir”, avisa ele, que atende na rua Deputado Antônio Franco Ribeiro, Centro. Quando começou na profissão, os sapatos eram feitos de couro e sola. Depois surgiram os tênis, que eram chamados de “Keds”, em referência à marca dos primeiros modelos fabricados. O sapateiro aprendeu a lidar com os tênis e pensou que os sapatos iam ser extintos, o que acabou não acontecendo. Completamente artesanais, os serviços dele são caprichados: reforça de um lado, cola e costura de outro. Em poucos minutos, transforma um calçado velho em novo. “Gosto de poupar”, confessa o freguês Bernardino da Silva Pena, 69 anos, morador do bairro Progresso (zona leste). “Como consertar sai mais barato que comprar, prefiro vir aqui. O trabalho do seu Jerson é muito bem-feito. Se nós não procurarmos o serviço dele, ele vai parar”, considera Bernardino.
Pai de duas filhas, o sapateiro lamenta não ter passado o ofício adiante. Para ele, a profissão corre o risco de acabar, pela falta de pessoas interessadas em aprendê-la. Mas Jerson quer exercer sua atividade enquanto puder. “O trabalho é minha vida. O dinheiro é uma conseqüência, não um objetivo. Não sei ficar em casa à toa, fico impaciente. Trabalhar, para mim, é uma terapia”, afirma. Ele diz que é o “garoto-propaganda” de seu negócio, pois trabalha na porta do brechó da mulher, onde os pedestres o observam em atividade. Antes, ficava em um cômodo nos fundos da loja, mas a vista “meio cansada” o obrigou a ficar mais perto da luz solar. “Descobri que, me expondo, atraio mais freguesia. O freguês gosta de ver o carinho e o cuidado que a gente tem com o calçado. Aí ele põe confiança. Se eu ficar escondido, ninguém vê nada”, explica.
Para se firmar como sapateiro, ele julga fundamental gostar do que faz, acompanhar a evolução e, como em qualquer profissão, ser honesto. A qualidade dos serviços de Jerson se deve, também, à criatividade. Ele mesmo inventa grande parte de suas ferramentas, adaptando chaves de fenda para usar como agulhas e furadores. Das histórias que coleciona ao longo de sua vida, o sapateiro se lembra de uma em especial. Foi há cerca de 20 anos, quando trabalhava para a Escola da Aeronáutica, em Barbacena. Ele recebeu a encomenda de engraxar as botas dos alunos para um desfile oficial. Era uma quantidade grande de serviço. Por volta de 22h, quando terminou a primeira etapa do trabalho, Jerson resolveu tomar umas doses para espantar o frio, mas acabou exagerando.
Ao retomar a atividade, em vez de pincelar o verniz preto, passou o vermelho em todas as botas. A pouca claridade da noite o impediu de perceber a falha. No dia seguinte, porém, durante o desfile, a luz do sol diretamente sobre os calçados deixava-os vermelhos. “O comandante voltou muito irritado e foi logo me procurar. Ele dizia que tinha levado os alunos para uma parada militar, não para o carnaval. Eu pedi que me perdoasse, pois eu tinha acabado o serviço às 2h da madrugada e estava muito cansado. A raiva do comandante acabou passando e eu continuei prestando serviços para a Aeronáutica”, relembra. Se um dia resolver largar a profissão de sapateiro, Jerson pode ganhar a vida como um bom contador de casos.
Autor: Joelmir Tavares / Acadêmico de Jornalismo da PUC-MG
Fonte: Jornal Estadoatual
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