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  Notícias
Profissão: Scouting
15/8/2008 15:20:25

O sonho de se tornar uma modelo permeia a mente da maioria das garotas. As bonecas Barbies também são um dos brinquedos preferidos na infância de qualquer menina.

Não é para menos. O mundo da moda é cheio de glamour, fama, dinheiro, badalações e gente bonita. Sempre que há alguma seleção para modelos, é enorme a fila de candidatas. O Brasil é um país que foi colonizado por emigrantes de várias partes do mundo. Por toda essa miscigenação, é celeiro de muitas mulheres bonitas, de belezas exóticas.

Nessa entrevista, o scouting Dilson Stein, que foi quem descobriu e lapidou o talento para as passarelas da top Gisele Bündchen e mais 2500 modelos, fala sobre esse mundo, e o que se deve fazer para chegar lá.

- É verdade que algumas modelos chegam a extremos, como usar cocaína para manterem-se magras?

- Talvez até algumas cheguem a tanto, mas aí elas não estão seguindo as orientações que nós e as agências damos. Com certeza, uma agência dá a orientação correta, para se cuidar, ter uma boa alimentação, e pode se alimentar bem. Deve haver um cuidado com as calorias ingeridas, mas deve, sim, se alimentar bem. De três a quatro vezes por dia. Quando alguma modelo faz isso, consumir drogas ou qualquer outra coisa anormal, está fazendo por conta própria.

- O que o senhor acha do padrão de beleza imposto, isto é, meninas magérrimas?

- Não é de muito magras. Toda modelo, quando vai para o mercado, a gente tem que sentir que ela tem saúde. Se não tiver saúde, não vai trabalhar, porque ninguém vai querer contratar uma menina com cara de doente. O que existe são padrões internacionais de medidas, que não são as agências de modelos que impõem, mas, sim, os estilistas ou as revistas de moda. Uma modelo pode ter 89 centímetros de quadril, que é o padrão de medida, e exibir uma saúde maravilhosa. Eu procuro orientar para que elas tenham que estar no peso, mas com saúde.

- O senhor dá conselhos para que as meninas não sacrifiquem a saúde emagrecendo de qualquer jeito?

- Sempre. Nenhum cliente vai querer contratar uma modelo para divulgação do seu produto, se ela estiver com cara de doente, porque não vai vender. Saúde é fundamental!

- Atualmente, as mulheres mais “cheinhas” estão na moda. Pode ter iniciado uma mudança no padrão decretando o fim das magrinhas?

- Pode, com certeza! Há exceções, vemos mulheres com um corpão, mais cheinhas, fazendo sucesso, inclusive algumas que eu descobri. Mas na área comercial, não na área fashion. Nesta, dificilmente alguém fora dos padrões vai fazer sucesso.

- Mesmo após alguns escândalos de anorexia?

- A anorexia não é algo ligado ao mundo da moda. Isso foi um exagero por parte da mídia. Eu estou há 23 anos nessa área e nunca vi uma modelo anoréxica. É uma doença que está inserida na sociedade. Por exemplo, tenho uma amiga que é psicóloga e cuida de três meninas com anorexia, mas nenhuma delas já pensou em ser modelo. É uma doença grave e hoje há um cuidado maior para que nenhuma modelo caia nisso, as agências estão mais de olho e orientando melhor. Mas acho que foi a mídia que colocou o mundo da moda como responsável pela anorexia...

- Não seria por causa de alguns casos de modelos?

- Foi uma modelo de 21 anos, que não seguiu a orientação da agência. Há modelos que tomam atitudes, mas não por nossa orientação. Ninguém vai colocar uma pessoa para anunciar o produto, que não tenha uma fisionomia boa.

- Como o senhor foi descoberto como modelo?

- Eu me descobri. A minha história começou em 1980. Eu sou de uma cidade muito pequena do Rio Grande do Sul que se chama Horizontina, que hoje é famosa por ser a terra da Gisele Bündchen, e eu sou um dos conterrâneos dela. Com 15 anos de idade, eu era bancário e um dia fui assistir a um desfile. Fiquei impressionado com a elegância, a postura, os modelos sendo aplaudidos e ganhando dinheiro para isso. Então, comecei a pensar no assunto e a ler a respeito. O acesso à informação na época era bem mais difícil, e aquilo foi se tornando um sonho.

- Quando realmente o sonho começou a virar realidade?

- Aos 18 anos, tomei a decisão de sair da minha cidade, porque lá não havia oportunidades, como curso ou um caça-talentos que fosse até lá, por exemplo. Mudei-me para Porto Alegre, carregando na bagagem o sonho de ser modelo. Comecei a fazer cursos, inclusive de teatro, e com 20 anos comecei a atuar como modelo. Atuei durante dois anos, em Porto Alegre e São Paulo, e em 1987, em visita à minha mãe, na minha terra, conheci vários meninos e meninas que tinham o mesmo sonho. Tive a proposta de dar um curso de modelos. Ali, comecei uma nova história, que está completando 21 anos, como scouter...

- O Rio Grande do Sul continua sendo o celeiro das mulheres bonitas do país. Por quê?

- Ainda é! O estado é responsável por 50% do mercado de modelos, de cada 10, cinco saem de lá. E eu sou responsável por uma boa parte delas. Já faz 19 anos que eu praticamente só atuei lá. Mas eu quero mudar esses números, estou agora em vários estados do país, em São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Bahia, Espírito Santo, Goiás e Brasília. Acho que o Brasil inteiro tem um potencial de meninas e meninos com talento, só falta oportunidade.

- Vindo a Brasília, já deu para observar e ter uma perspectiva se daqui poderão sair grandes modelos?

- Pelo que observei, andando pelas ruas e pelos shoppings, Brasília tem muita gente bonita. A expectativa é a de descobrir alguns talentos, tanto na área comercial quanto na fashion. Estamos à procura de modelos comerciais, que são aquelas que a altura não é tão importante, pois vão trabalhar mais com anúncios publicitários e televisão. Modelos fashion, para passarela e campanhas de moda, que devem ser altas e magras e também atrizes e atores. Tenho contatos com diretores de televisão e teatro.

- O senhor é muito vaidoso?

- Eu gosto de me vestir bem, de estar sempre bem arrumado. Sou vaidoso, sim.

- Qual o critério para a escolha das futuras modelos?

- O critério da seleção inicial, que é o que vai ocorrer aqui em Brasília, é pelo visual, o conjunto de uma série de critérios e fotogenia. Fazemos uma foto de cada um. Para conquistar sucesso como modelo, é preciso talento e atitude. Nessa área, o talento é fotografar bem, principalmente, andar bem e interpretar. E atitude é ter personalidade, disciplina profissional, determinação. Ter um objetivo. Gosto de definir assim: talento e atitude.

- O que é observado?

- Nós olhamos os traços, altura, peso, desenvoltura e a fotogenia, que conta muito. Também é importante acrescentar que, às vezes, as pessoas desistem porque estão com uma espinha, por exemplo, naquele dia, ou com uma gordurinha a mais. Mas elas não precisam se preocupar com isso, porque nós temos uma noção de como a pessoa pode ficar depois.

- O que faz uma modelo se destacar e ganhar grande projeção, como Gisele Bündchen?

- Para mim, ela representa, no mundo da moda, o que o Pelé representa para o futebol. O que a fez chegar lá, além do grande talento e beleza, foi o profissionalismo e a atitude. Para uma modelo brasileira, chegar ao topo e estar se mantendo lá por nove anos é algo muito difícil. Acredito que, no Brasil, irão surgir grandes modelos e top models, mas Gisele, dificilmente vai surgir outra...

- Como o senhor percebe o mercado atual da moda no Brasil?

- Está em crescimento, com certeza. De uns anos para cá a moda brasileira cresceu muito, fizemos grandes eventos no país. Em quase todos os estados temos grandes eventos de desfiles. A moda valorizou muito, temos grandes estilistas sendo valorizados no mercado internacional. Um dos fatores para que isso ocorresse foi a Gisele Bündchen, que abriu as portas para as modelos brasileiras e para a moda brasileira. O Brasil é um país respeitado no mercado internacional.

- O que o senhor acha das mulheres que estão aparecendo agora, como a Mulher Melancia ou a Mulher Melão? O senhor as considera modelos também? Ou modelo obrigatoriamente deve ser magra?

- Elas não são modelos de moda, o que é bem diferente. Elas estão fora dos padrões, fazem muito sucesso e parabéns para elas! Mas não é o nosso foco. Não fazem parte de uma agência de modelos.

- Qual a diferença entre modelo comercial e de passarela?

- Modelo comercial é aquela que a altura não é tão importante. Já coloquei no mercado meninas de até um metro e sessenta de altura, que irão trabalhar com anúncios publicitários e comerciais de televisão. A beleza é fundamental. Existe também um padrão de medidas, mas que não é tão rigoroso. A modelo fashion é aquela que tem que se manter dentro das medidas de 89 centímetros de quadril, ou menos, e vai trabalhar com passarela ou campanhas de moda.

- Como o senhor lida com o fato de muitas vezes ter que falar não para uma menina que tem o sonho de ser modelo?

- É difícil! Mas eu tenho muito cuidado na forma de falar, ainda mais que trabalho muito com crianças e adolescentes. Eu policio o que falo, a maneira como coloco as palavras e desenvolvo o trabalho. Minha função é informar, preparar e dar a oportunidade. Não é uma promessa. As pessoas já estão preparadas para receber um sim ou um não. Fica mais fácil. Existem vários profissionais que, infelizmente, trabalham de forma diferente, prometendo o que não pode ser cumprido e, assim, criam uma grande frustração para algumas meninas.

- Com que idade o senhor aconselha a menina iniciar a carreira?

- Eu seleciono crianças a partir de oito anos. Muitas estão fazendo sucesso nessa idade. Para adultos, o ideal é 14, 15 anos. Apesar que, hoje, o mercado também está excelente para modelos comerciais de 20 a 30 anos. Algo mudou no Brasil, de uns tempos para cá, e hoje existe grande mercado para essa faixa etária. Estive em São Paulo esta semana, e percebi que estão procurando modelos de 25 a 30 anos. Para se fazer um comercial de cerveja, por exemplo, deve-se ter, no mínimo, 25 anos, o que é um pouco absurdo, porque se você tem maioridade com 18, se poderia também ser permitido fazer comercial de cerveja.

- Quando selecionou Gisele Bündchen, o senhor sentiu que ela se tornaria uma top?

- Eu comentei com uma tia dela, no primeiro dia que a vi, que ela poderia ser uma grande modelo. Até a comparei com uma outra grande modelo que coloquei no mercado, na época. Isso, foi em 1994. No outro dia, a chamei novamente, e falei claramente que ela poderia ser uma das melhores modelos do mundo. As pessoas não acreditaram muito, mas eu acreditei. Ninguém a olhava com esse grande potencial para ser modelo, mas eu tenho esse feeling. Já acertei muito, mas já errei também...

- Quais são as etapas da seleção?

- Após a seleção a gente faz uma convenção, com palestras com os profissionais mais conceituados do mercado, para falar sobre moda, estética, nutrição e maquiagem. Também, temos a presença de diretores de teatro, para fazer uma gravação com todos. Existe um grande potencial para descobrir um ator ou atriz. Produzimos fotos e há uma avaliação das agências, aonde os rapazes e garotas vão se apresentar em uma entrevista. Participam em torno de 10 a 13 agências, em uma relação de parcerias.

- Para onde elas seguem depois?

- São duas seletivas. A primeira é feita pelo Marcelo Salem, que é o parceiro de trabalho em Brasília. A outra etapa é a palestra feita por mim, para a modelo e os pais, e uma nova seleção comigo. Os aprovados terão a oportunidade de participar de um evento que será realizado em novembro, aqui em Brasília, onde vou trazer as agências, os diretores de televisão, até aqui.

- É importante a abertura com os pais?

- É fundamental para a carreira de qualquer modelo o apoio, estrutura, orientação e acompanhamento da família. A família é o equilíbrio, a base de toda pessoa, não somente na carreira de modelo, mas em qualquer profissão. Eu defendo uma importância enorme nessa relação.

- Muitas agências cobram o book...

- Eu queria deixar claro que não é preciso o book para ser um candidato a modelo. Nós não cobramos isso. Depois que a modelo é agenciada, aí, sim! O book é a sua ferramenta de trabalho. Mas, para quem é apenas candidato a modelo, não é importante. As agências preferem ver fotos digitais caseiras, sem produção nenhuma, para poder avaliar se tem potencial para ser modelo. Depois, sim, se convidado por uma agência, irá ter que investir em um book. As agências de New York, para as quais trabalho, nem mesmo recebem as fotos de book.



Autor: Natália Vergütz
Fonte: Brasília EmDia

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